Verbalizar

"Expressando uma vida digna"

Textos


Viseiras Postas

 

     — Putz! Acabou a luz… E agora? A bateria do celular está em 10%. E ainda são dezessete horas.

     E se não voltar? Como acompanharei as redes sociais?

     — Putz! Não tomei banho e tenho que sair. Como vai ser encarar o chuveiro gelado, neste frio de primavera?

     — Putz! E o caixa eletrônico… Não tenho nenhum tostão e meu cartão está nos limites. Mas, se não há internet, como é que vou sacar?

     Em um minuto tudo pode virar de cabeça para baixo, e nossos planos ruírem como um castelo de areia.

     Será que vivo uma simulação?

     Belisque-me, por favor!

     Minha realidade é um sonho que alguém pode apagar?

     A “liberdade” é provisória para um dependente social?

     Uma aceitação engolida a seco, que desce pela garganta, trazendo má digestão, e alguns estragos psicológicos que fazem toda a estrutura do corpo estremecer.

     Talvez um relaxante, quem sabe um Rivotril... Quero desmaiar e acordar somente quando a luz voltar.

     Assim continuo, sem os invisíveis arranhões que a dependência trás.

     — Putz! A farmácia está fechada. A padaria também! O mercado também!

     Meu Deus, socorro! E quem não acredita n'Ele se vira como? 

     A cidade virou um caos.

     Alguém havia me dito que um apagão iria acontecer.

     Que a pandemia, no delírio coletivo, parecia uma simulação articulada,

roubando vidas enquanto tentávamos entender a verdade.

     Quem são os que puxam as cordas? E os paus-mandados que indicam a direção?

     Zé Ramalho fez o refrão:

     “Êh, ô, ô, vida de gado, povo marcado, êh, povo feliz!”

     E eu cantava — sem entender!

     Com as viseiras postas, seguimos em uma só direção.




 

Maurício de Oliveira
Enviado por Maurício de Oliveira em 19/12/2025
Alterado em 19/12/2025
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