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"Expressando uma vida digna"

Textos


200ª. Postagem da Semana Especial – O Zen do Haicai O Zen do Haicai:

 

E o selecionador misterioso desta semana é... Carlos Martins!

 

     De início, quero agradecer à administração da página O Zen do Haicai por esta oportunidade que muito me honra. Participo deste espaço há quase sete anos e tenho me aperfeiçoado no haicai, pela contribuição de todos os integrantes que passaram ou permaneceram.

     A chance que me foi dada pelo Administrador de selecionar as contribuições que mais me sensibilizasse foi uma tarefa árdua, pois muitas alcançaram essa condição e todas, absolutamente todas me emocionaram, pelo reconhecimento mediante suas postagens, de que a página também é útil a eles.

     Como foi aberta a possibilidade de compor haicais (tradicionais ou livres), tancas e haibuns, selecionei os exemplares que mais me sensibilizaram de cada categoria. E vamos a eles!

 

1° Haicai - Lizziane Negromonte Azevedo - Monteiro - PB.

 

Descansa na cruz 

o passarinho de inverno —

Igreja vazia

 

     Vejo muita simbologia nas poucas palavras do poema: a religião como refúgio da vida atribulada dos homens e mulheres (“descansa na cruz”); a descoberta com o passar da idade que são necessárias paradas para revisitar o caminho percorrido e traçar novos trajetos para os sonhos (que nunca deverão cessar...); que Deus está sempre presente ( o pássaro, a pomba do Espírito Santo) na verdadeira igreja, a interior, da qual a de tijolo ou pedra são tão-somente emblemas materiais; a técnica do contraste bem utilizada, com a presença do passarinho na igreja vazia; a técnica do wabi presente, na cena de pobreza voluntária descrita, emocionante, com solidão do homem aceita, em função da presença espiritual sugerida pelo pássaro, que contempla o contemplador.

 

2° Haicai livre - Eunice Tomé - Santos - SP.

 

Domingo de sol —

Ideologias à parte

a vida segue

 

     No mundo atual tão dividido e encastelado em opostos, no qual somos convidados a ter um “lado” e, pior, que nos leva a acreditar que devemos — e temos! — opinar sobre tudo, desde o cruzamento dos ornitorrincos à matéria plasmática das estrelas, passando pela plasticidade dos tentáculos das águas-vivas, haijin nos propõe algo mais simples, duradouro e eficaz: que nos deixemos levar pelo calor do sol no dia, “deixar a vida nos levar”, ao invés da insensatez de tentarmos domá-la, conduzi-la para onde desejarmos. Impedir o fluxo da vida como ela deve ser vai de encontro ao princípio taoísta do Wu Wei, da ação pela não-ação, que recomenda seguirmos o fluxo natural das coisas, e não lutar contra elas.

     Em um koan Zen, o mestre diz a seu discípulo: “Você poderá represar a água, mas nunca deter o rio”. Ao fim, talvez seja esta a lição presente neste delicado e profundo poema mínimo.

 

3° Do haicaísta: Amauri Amaral Campos - Bom Jesus dos Perdões - SP.

 

Na minha estante,

um "De Magma a Lava"

Sonho impossível?

 

     Nenhum sonho é impossível, caríssimo. Já dizia Henry David Thoreau, em Walden, a Vida nos Bosques: Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar.

     Agora ponha-les os alicerces.

 

4° Tanca - Vanice Zimerman Ferreira - Curitiba - PR.

 

Ainda molhada —

uma gota de guache

alonga o verso...

 

Desliza em meu autorretrato

fugaz alquímico beijo!

 

     Venho empreendendo desde sempre a difícil tarefa de entender a alma humana, e a da mulher é ainda mais desafiadora. Por quê? Talvez porque nós homens sejamos mais cartesianos, simples em nossa psiquê. Já as mulheres têm a simplicidade de um modo mais...amplo!

     O onírico, o mistério, a espiritualidade, o prazer, a capacidade de gerar e tudo que ela expande no espírito feminino, são inescrutáveis para mim. Por isso, quando me deparei com esse poema da talentosa poeta e aquarelista curitibana, parei repetidamente a cada leitura, para reconstruir na retina as cores emprestadas à tela, as combinações e contraste.

     Imaginei que seus versos eram escritos a pincel e que aos poucos revelavam o sorriso da autora. A matéria do tanca é composta de subjetividade, assim, Vanice e eu podemos viajar nas cores do verso e da aquarela, ela como autora e eu como coautor.

 

5° Haibun - Maurício de Oliveira - São Paulo - SP.

 

"Pôr do Sol"

 

Ora, mais um dia se esvai, e o pôr do sol, nesta tarde, pousa tranquilo ao noroeste... No inverno, a agulha natural do astro inclina-se nessa direção.

 

Algumas pipas ainda dançam pelo alto, mas a face da noite, sobrevinda ao leste, indica aos meninos que já é hora de enrolar suas linhas e se recolherem.

 

O que virá a seguir?...

 

estrela hibernal —

meio há brilhantes egos

prefiro-me apagar

 

     Tive um sinal para tal escolha. Vi enroscadas na copa de uma árvore alta, aqui no parque perto de casa, algumas pipas coloridas e esqueletos de bambus delas, que a inabilidade no empinar, abreviou-lhes o voo.

     Parece-me que Maurício andou estudando as dicas da mestra Teruko Oda para a composição de haibun. Ele situa objetivamente a prosa em um fim de tarde, provavelmente perto do seu trabalho ou casa, nos garantindo a realidade do "aqui e do agora" compartilhado; não exagera no tamanho da prosa, o que relegaria o haicai a um segundo plano, e nem a constrói tão curta, que a confunda com um título ou manchete; e, por fim, transição para uma certa subjetividade se dá com o kigo “estrela de inverno”, que segundo a Kigologia, é pequena, apagada e enfraquecida.

     E aí, está o haimi do conjunto. Ao haicaísta, na literatura — pelo menos vejo assim —, convém seguir um caminho de coadjuvante não de protagonista. Ele não deve ser o destaque, o demiurgo que dá vida às coisas da natureza e do homem dentro dela, ao contrário, ele deve se investir no papel de observador, passivo frente à obra da verdadeira criadora e matéria de todas as coisas, a Natureza.

     Espinoza disse que Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade.

     Assim, o poeta, sabedor da impossibilidade de abrir mão do seu ego, e não querendo se curvar aos dos demais, se afasta.

     Certamente, lições de haibun e de vida!

 

     É isso! Acabei não seguindo o pedido da Administração de escolher uma composição a ser premiada com um livro. Então sugiro o seguinte ao Administrador: que presenteie cada haijin com um livro da antologia “Caminhos, V”, do Grupo de Haicai Estrela do Atami, de Santos-SP, exceto para nosso haijin sonhador Amauri Amaral Campos, que deverá receber o tão desejado “De Magma a Lava”, em sua casa.

     Muito obrigado!

 

Carlos Martins - mestre haicaísta.

O Zen do Haicai: sugestão aceita!




     "Agradeço ao ilustre mestre Carlos Martins a oportunidade de participar deste exercício em comunhão com talentosos haicaístas".

 

Maurício de Oliveira.

Carlos Martins.
Enviado por Maurício de Oliveira em 27/07/2025
Alterado em 27/07/2025
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